O caso: em 16 de outubro de 2026, o pesquisador de segurança Quentin Kaiser apresentou na conferência Hexacon, em Paris, uma falha que ele chamou de WPSplinter. Ela está no código antigo de WPS da Broadcom, fabricante de chips usados em roteadores e pontos de acesso Wi-Fi. Quem tem em casa ou no escritório um roteador, principalmente um aparelho antigo ou entregue pela operadora, quer saber se está exposto e o que fazer.
Resposta curta: segundo a página do pesquisador, quem está no alcance do Wi-Fi pode atacar o roteador sem saber a senha. Trocar a senha do Wi-Fi não resolve. Numa casa como a do exemplo, uma senha vazada abre a porta para 19 aparelhos de uma rede com 254 vagas. A saída depende de atualização do fabricante; enquanto ela não vem, dá para tirar o Wi-Fi do aparelho antigo e pôr um roteador atualizado na frente.
O que foi divulgado
O WPS é aquele recurso que conecta um aparelho ao Wi-Fi apertando um botão no roteador ou digitando um PIN. A Broadcom tem uma implementação própria desse recurso, usada há anos em roteadores de várias marcas.
Segundo a página de Kaiser sobre a pesquisa, a falha é uma corrupção de memória que acontece antes de qualquer autenticação. Em palavras simples: o roteador processa mensagens do WPS enviadas por alguém próximo antes de conferir se essa pessoa tem a senha. Uma sequência específica dessas mensagens bagunça a memória do aparelho e pode levar à leitura de dados ou à execução de comandos.
Os pontos principais, como descritos na pesquisa:
| O que se pergunta | O que a pesquisa informa |
|---|---|
| Onde está a falha | No código antigo de WPS da Broadcom, em roteadores e pontos de acesso |
| De onde vem o ataque | De alguém no alcance do sinal Wi-Fi |
| Precisa da senha do Wi-Fi? | Não |
| Precisa completar o pareamento WPS? | Não |
| Demonstração feita | Senha do Wi-Fi extraída da memória de um modem Askey TCG3000 da operadora Orange, na Bélgica |
| Número CVE | Não há, segundo a cobertura da pesquisa |
| Ferramentas publicadas | Slides da Hexacon, script para identificar aparelhos e regras de detecção |
A lista de aparelhos afetados não está completa. O próprio pesquisador diz isso. Por isso, a pergunta "o meu está na lista?" ainda não tem resposta fechada para a maioria dos modelos.
A posição da Broadcom
A Broadcom diz que conhece o problema desde 2018, ou seja, há 8 anos, e que substituiu o código antigo de WPS. A recomendação da empresa aos fabricantes é trocar o seu programa próprio de WPS pelo hostapd, um programa de código aberto muito usado em roteadores. Kaiser afirma que a correção antiga foi incompleta e que os aparelhos que ele reportou continuavam sem correção quando a pesquisa veio a público.
Na prática, isso quer dizer que a correção não chega pelo chip. Ela depende de cada fabricante de roteador, e às vezes de cada operadora, publicar um firmware novo. Roteadores que não recebem mais atualizações podem nunca ser corrigidos.
A conta do impacto: o que a senha do Wi-Fi abre
A demonstração mais concreta foi a extração da senha do Wi-Fi. Parece pouco, mas a senha é a chave da rede inteira.
Pense numa casa de exemplo, com a rede padrão de muitos roteadores: 192.168.1.0 com máscara 255.255.255.0 (ou /24). Essa rede tem 254 endereços para aparelhos. A casa usa:
- 14 aparelhos da família: celulares, notebooks, TV, videogame e 6 itens de casa conectada (lâmpadas, câmera, assistente de voz);
- 5 aparelhos de visitas que já usaram a mesma senha.
Total: 14 + 5 = 19 aparelhos na mesma rede. Quem tiver a senha entra nessa rede como se fosse um deles e passa a enxergar todos: a impressora, a câmera, o painel do próprio roteador.
| Situação | Aparelhos alcançáveis | O que protege |
|---|---|---|
| Rede única, senha vazada | 19 de 254 vagas | Nada além da senha de cada aparelho |
| Visitas numa rede separada | 14 | A separação, se a falha não atingir o roteador inteiro |
| Roteador comprometido (execução de comandos) | Todos | Só a troca ou a atualização do roteador |
A última linha é a mais séria. Se o atacante consegue executar comandos no roteador, separar a rede de visitas não adianta, porque quem controla o roteador controla todas as redes que ele cria.
O que fazer agora, em ordem
1. Procure atualização. Entre no painel do roteador e veja a versão do firmware. Compare com a página de suporte do fabricante. Se o aparelho é da operadora, ligue para ela e pergunte se há atualização prevista para essa falha.
2. Desligue o WPS no painel. Não há confirmação de que isso fecha a falha, porque o código vulnerável trata mensagens antes da conexão e a pesquisa não garante que a opção do painel desliga esse código. Mesmo assim, é um passo de custo zero e diminui o que fica exposto.
3. Se não houver correção, tire o Wi-Fi do aparelho antigo. A saída mais segura para quem não tem atualização é:
- desligar o Wi-Fi do modem da operadora;
- pedir à operadora que deixe o modem em modo bridge (só como ponte), ou ligar um roteador próprio atrás dele;
- deixar o Wi-Fi da casa por conta de um roteador atualizado, de preferência de um fabricante que ainda publica firmware para o modelo.
4. Não deixe duas redes com a mesma faixa. Se o modem da operadora continuar como roteador e você ligar outro atrás dele, cada um precisa de uma faixa diferente. Veja a diferença no terceiro grupo de 8 bits:
| Aparelho | Rede | Endereço da rede em binário |
|---|---|---|
| Modem da operadora | 192.168.1.0/24 | 11000000.10101000.00000001.00000000 |
| Seu roteador | 192.168.0.0/24 | 11000000.10101000.00000000.00000000 |
Com máscara /24, os três primeiros números definem a rede. Como o terceiro é diferente, são duas redes distintas e o roteador sabe para onde mandar cada pacote. Se as duas fossem 192.168.1.0/24, a internet poderia parar de funcionar.
E na pequena empresa?
A conta muda de escala. Uma loja de exemplo com 25 aparelhos no Wi-Fi (caixas, maquininhas, computadores e celulares da equipe) cabe numa rede /27, com máscara 255.255.255.224 e 30 vagas. Se o roteador da loja estiver entre os afetados, quem estiver no estacionamento com um notebook pode tentar o ataque, porque o requisito é só estar no alcance do sinal.
Para a empresa, vale o mesmo roteiro, com dois cuidados extras: anote o modelo e a versão de todos os roteadores e pontos de acesso, e separe numa rede própria as maquininhas e o sistema de caixa.
Erros comuns
- Trocar a senha do Wi-Fi e achar que resolveu. A falha acontece antes da senha.
- Desligar o WPS e parar por aí. Ajuda, mas não há confirmação de que fecha a falha.
- Esperar um aviso da Broadcom. A correção vem do fabricante do roteador ou da operadora.
- Ligar um segundo roteador com a mesma faixa do primeiro. Gera conflito e derruba a internet.
Perguntas frequentes
Meu roteador é afetado?
Ainda não dá para saber pela marca. A lista do pesquisador é parcial. Procure o modelo na página de suporte do fabricante e pergunte à operadora, se o aparelho for dela.
Quem pode explorar a falha?
Quem estiver no alcance do sinal Wi-Fi do roteador. Não precisa da senha. Na casa do exemplo, depois de obter a senha, a pessoa alcança 19 aparelhos.
Desligar o WPS resolve?
Não há confirmação. É uma medida barata, mas a pesquisa indica que o código vulnerável age antes da conexão.
A Broadcom vai corrigir?
A Broadcom diz que conhece o problema desde 2018 e recomenda que os fabricantes troquem o código de WPS. A correção chega por cada fabricante.
Quantos aparelhos cabem na rede da minha loja se eu separar o Wi-Fi?
Para 25 aparelhos, a menor rede é a /27, com 30 vagas e máscara 255.255.255.224.
Vai ligar um roteador próprio atrás do modem? Confira as faixas na calculadora de máscara de rede.